Engenharias: entenda cursos de computação e eletrônica – 02/06/2026 – Educação

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Assim como muitos vestibulandos, o mineiro José Gonzaga, 19, não escolheu o curso por vocação. O estudante sempre foi bom em exatas e não se via nas outras áreas —nunca gostou de escrever, por exemplo. A escolha recaiu sobre engenharia da computação, influenciado pelo irmão e pela percepção de um mercado amplo, com boas perspectivas de salário.

Fala em possibilidades, do setor de tecnologia ao financeiro, mas admite não saber ao certo o que faz um engenheiro no dia a dia. “Sei muito pouco sobre a atuação. Queria entender melhor qual é o papel dentro de uma empresa”. No segundo ano de cursinho no Colégio Bernoulli, o maior obstáculo até a faculdade não é cálculo nem física: é a redação.

Entre a promessa de estabilidade e a falta de clareza, José diz que o maior receio é ter escolhido a vertente errada e se decepcionar com o curso ao entrar, algo que já ouviu de colegas que gostavam de matemática. “[Meu irmão] disse que, se pudesse, hoje em dia ele faria engenharia de produção. Animador.”

Não é por acaso que José não está sozinho nessa escolha. As engenharias ligadas à tecnologia —computação, software e eletrônica— estão entre as maiores notas de corte do Sisu 2026.

Para Vinicius Marchese, presidente licenciado do Confea, conselho federal da área, o movimento reflete o momento. “Houve um aumento de estudantes justamente por causa da transformação digital, da inteligência artificial. São áreas do futuro.”

Aquecidas, essas graduações atraem quem, como José, vê na tecnologia uma promessa de empregabilidade. O estudante acredita que o diferencial do curso escolhido é a possibilidade de trabalhar com hardware —parte física de um dispositivo eletrônico ou computador.

A engenharia da computação é um curso de fronteira, que transita entre o físico e o digital. Dependendo da universidade, o foco pode recair sobre o hardware ou sobre a integração entre esse substrato físico e o software que o governa. O diploma abre caminho do desenvolvimento de chips ao gerenciamento de dados em grandes empresas.

O que distingue o engenheiro da computação do cientista da área é a forma de encarar o problema. A ciência da computação se debruça sobre fundamentos e lógica de programação; a engenharia mira o produto que vai existir no mundo. “Grosso modo, a engenharia da computação é mais ligada ao hardware”, afirma o pró-reitor adjunto de graduação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Pedro Pereira.

Na ponta oposta da cadeia, junto ao usuário, está a graduação chamada de engenharia de software (ou sistemas). Na UFMG, esse engenheiro é descrito como alguém que precisa “entender diferentes realidades e traduzir aquilo em novos programas, softwares, para melhorar o fluxo de trabalho das pessoas”.

Essas áreas também ajudaram a desmitificar o imaginário social do engenheiro. “Quando penso em engenheiro, vem aquela imagem do engenheiro civil na construção com capacetinho e tal”, diz João.

Diferentemente da medicina ou da veterinária, a rotina de um engenheiro raramente aparece no dia a dia visível do cidadão comum. Sem uma referência, a escolha recai sobre o nome do curso, e a confusão entre as diferentes engenharias acaba acontecendo. Professores ouvidos pela Folha dizem que a dificuldade aparece cedo, já nos primeiros anos de graduação.

A engenharia de telecomunicações é uma das mais confundidas entre vestibulandos, ora tomada pela elétrica, ora pela eletrônica. A área cuida da comunicação entre dispositivos, das redes de internet e fibra óptica à telefonia móvel e aos satélites. O engenheiro planeja e gerencia essa infraestrutura, atuando também em segurança cibernética e integração de sistemas.

A eletrônica, por sua vez, opera onde a energia elétrica encontra a informação. Circuitos, sistemas embarcados, robótica, redes 5G, equipamentos médicos. Enquanto a elétrica tradicional lida com alta tensão, a eletrônica trabalha com baixa potência.

O diretor da Escola Politécnica da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Sérgio Lima Netto resume com humor a diferença entre as graduações. “Se você botar o dedo na tomada de engenharia eletrônica, não vai te dar grande choque.” Dentro de um único curso, ele afirma, existem na prática dez cursos de eletrônica diferentes.

Com o avanço da inteligência artificial, alguns desses cursos já estão passando por reformulações. A Unesp aponta uma crescente demanda por especialistas em IA e dados, e define o engenheiro moderno como um integrador tecnológico estratégico. Na USP, a engenharia eletrônica e de sistemas computacionais ganhará uma nova graduação voltada à interface entre hardware e software, em áreas como semicondutores e IA.


ENGENHARIA DA COMPUTAÇÃO

  • O que o aluno vai aprender: Nos dois primeiros anos, o aluno passa pelas ciências básicas, cálculo, física e álgebra. A partir daí, o curso se volta à integração entre software e hardware, com disciplinas de manutenção, suporte, desenvolvimento de componentes físicos.
  • O que a área faz: A tecnologia é o processo e o produto final. Ela é responsável pelo desenvolvimento de hardware, ou seja, os próprios computadores e peças físicas que permitem que os cálculos e programas funcionem.
  • Profissões depois de se formar: Atuação em suporte especializado, desenvolvimento de produtos tecnológicos, manutenção de sistemas complexos e indústria de hardware.

ENGENHARIA DE SOFTWARE / SISTEMAS

  • O que o aluno vai aprender: Entender diferentes realidades e traduzi-las em novos programas e softwares para melhorar o fluxo de trabalho das pessoas. Diferente da ciência da computação pura, o foco é na aplicação e no entendimento das demandas das equipes e clientes.
  • O que a área faz: É voltada especificamente para o desenvolvimento de softwares a partir de uma infraestrutura (hardware) que já existe. O engenheiro de sistemas atua “na ponta”, analisando o que o cliente precisa para criar soluções lógicas eficientes.
  • Profissões depois de se formar: Desenvolvedor de software, analista de sistemas, gestor de projetos de TI e consultor de processos tecnológicos.

ENGENHARIA DE TELECOMUNICAÇÕES

  • O que o aluno vai aprender: Recebe uma formação para desenvolver sistemas de comunicação, com possibilidade de especialização em redes 5G e nanotecnologia. O currículo ainda aborda desde a infraestrutura de dados até a segurança cibernética.
  • O que a área faz: Concentra-se no desenvolvimento de dispositivos eletrônicos e redes de comunicação de dados (internet, fibra óptica, satélites e redes móveis).
  • Profissões depois de se formar: Planejamento e gestão de projetos de comunicação, especialização em conectividade em empresas de telefonia e redes, e segurança cibernética.

ENGENHARIA ELETRÔNICA

  • O que o aluno vai aprender: O foco é em circuitos, sistemas embarcados, robótica, controle industrial e nanotecnologia. É considerada uma das áreas com carga teórica mais pesada e difícil no início da graduação.
  • O que a área faz: Desenvolve dispositivos e sistemas que operam em baixa potência e tensão, como componentes de celulares e computadores.
  • Profissões depois de se formar: Projetista de circuitos, engenheiro de automação e robótica, desenvolvedor de sistemas para a indústria aeroespacial e de defesa, e especialista em equipamentos médicos de alta tecnologia.



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