Os bancos digitais passaram a ocupar uma fatia cada vez maior do mercado de crédito brasileiro nos últimos anos. Nesse mesmo período, indicadores de inadimplência no cartão de crédito também registraram forte crescimento, segundo estudo da Equifax Boa Vista baseado na análise de mais de 165 milhões de CPFs.
O levantamento aponta que, de 2021 a 2025, o número de clientes com atraso no pagamento do cartão de crédito cresceu 163,3%, enquanto a base de consumidores avançou 14,95%.
Nesse mesmo período, os neobanks (bancos que operam exclusivamente em plataformas digitais) passaram a concentrar uma parcela cada vez maior dos usuários de crédito. Segundo o estudo, em 2025, 47,1% dos brasileiros com cartão de crédito ativo mantinham relacionamento exclusivamente com esse tipo de instituição, contra 27,9% em 2021. No empréstimo pessoal, a participação saltou de 18% para 51,8%.
Para a Equifax Boa Vista, os números mostram que os bancos digitais se consolidaram como uma das principais portas de entrada para o crédito no país, especialmente entre consumidores que antes estavam fora do sistema financeiro. Silvio Santana, VP comercial de key accounts da empresa, afirma que os dados também ajudam a compreender as mudanças no comportamento financeiro dos brasileiros e os desafios que esse novo cenário traz para o mercado de crédito.
Em 2025, 41,4% dos cartões emitidos por bancos digitais representaram o primeiro cartão de crédito dos consumidores. Entre os bancos tradicionais, esse percentual foi de 4,9%. No empréstimo pessoal, 10,2% dos consumidores que obtiveram crédito pela primeira vez foram atendidos por neobanks, contra 9,9% nos bancos tradicionais.
O estudo foi desenvolvido pela equipe de Data & Analytics da Equifax BoaVista, com análise de mais de 165 milhões de CPFs ativos elegíveis à concessão de crédito no período. Os dados foram complementados por uma pesquisa de opinião realizada pela Acordo Certo de 12 a 24 de março de 2026, com 2.296 usuários, com CPF ativo e cadastro em bancos tradicionais, bancos digitais ou ambos.
Crédito digital ganha espaço
Embora os bancos tradicionais ainda concentrem a maioria do saldo de crédito ativo, ou seja, das operações de cartão de crédito e empréstimo pessoal ainda em andamento, a pesquisa aponta que os neobanks registraram o crescimento mais acelerado nos últimos anos.
De 2021 a 2025, o saldo de crédito ativo dos bancos digitais avançou mais de 360%, enquanto nos bancos tradicionais o crescimento foi de 35,7%. Com isso, a participação dos neobanks no mercado passou de 11,8% para 31,8% no período.
Folha Mercado
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Apesar do avanço, os bancos tradicionais seguem sendo a principal instituição financeira para 61,15% dos brasileiros, segundo pesquisa de opinião da Acordo Certo. Além disso, 71,5% afirmam que não trocariam um banco tradicional por um digital. Entre aqueles dispostos a migrar, o principal atrativo é o acesso a um volume maior de crédito (46,9%), seguido por juros menores (25,6%).
Para Ulisses Monteiro Ruiz de Gamboa, economista da ACSP (Associação Comercial de São Paulo), o crescimento dos bancos digitais aumenta a concorrência no mercado, ampliando as opções para os consumidores e contribuindo para melhores condições de crédito.
Inadimplência cresce entre clientes de bancos digitais
O estudo também mostra um aumento da inadimplência entre os clientes dos bancos digitais. No cartão de crédito, o índice de consumidores com pagamentos em atraso passou de 7,71% em 2021 para 20,31% em 2025. Nos bancos tradicionais, o percentual recuou de 14,57% para 13,6%.
O avanço também aparece no volume de recursos em atraso. Ao fim de 2025, o saldo inadimplente dos cartões emitidos por bancos digitais representava 11,16% do total ativo da modalidade, ante 5,77% em 2021. Entre os bancos tradicionais, o percentual passou de 6,60% para 8,75%.
No empréstimo pessoal, a taxa de inadimplência dos clientes dos neobanks mais que dobrou no período, passando de 6,55% para 13,93%. Já o saldo em atraso saltou de 2,56% para 10,3% do total ativo. Nos bancos tradicionais, esse percentual passou de 2,66% para 3,5%.
Ulisses Gamboa diz que parte desse movimento pode ser explicada pela maior exposição ao risco, já que os neobanks passaram a atender uma parcela cada vez maior dos consumidores com crédito ativo. Segundo ele, os resultados também indicam a necessidade de aprimorar os modelos de análise de risco adotados por essas instituições.
Programa de renegociação de dívidas
Em 4 de maio, o governo federal lançou uma nova edição do Desenrola Brasil, programa voltado à renegociação de dívidas e à redução da inadimplência. A iniciativa terá duração de 90 dias.
Entre as medidas anunciadas estão descontos de até 90% para quitação de débitos bancários, o programa propõe limpar o nome de quem deve até R$ 100 e oferece a possibilidade de utilizar até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) —ou R$ 1.000, o que for maior— para o pagamento das dívidas.









