A linguagem humana está em formação. Os neandertais que habitam o romance “Os Imortais“, de Paulliny Tort, trocam informações e argumentos úteis à sobrevivência do clã, mas o traquejo verbal não está entre seus pontos fortes.
Os poucos espécimes de Homo sapiens que também habitam o romance são mais loquazes, mas ouvidos pelos neandertais só produzem algaravia —o tema do livro é o encontro dessas duas espécies tão semelhantes quanto diferentes, em tempo e local vagos, algumas dezenas de milhares de anos atrás.
Não se sabe qual era o grau de sofisticação da linguagem oral daquelas gentes, nossos antepassados –embora os neandertais tenham se extinguido cerca de 40 mil anos atrás, parte de seu genoma vive em nós.
Ainda não tínhamos começado a deixar rastros de palavras pelo mundo, o que vem a ser a própria definição de pré-história. Isso faz com que o risco vertiginoso corrido por “Os Imortais”, praticamente a cada linha, seja o do anacronismo.
Se os personagens não dominam as palavras que o narrador em terceira pessoa usa para encenar sua subjetividade e visão de mundo, como não impor o presente ao passado, caindo no discurso científico, de um lado, e na fábula ou na farsa, do outro?
Parece impossível, mas cabe à grande ficção fazer o impossível, e “Os Imortais” faz. Com fascínio e algum medo, a imaginação leitora se espraia num mundo para o qual as palavras, mesmo não estando prontas, desenham a presença inequívoca de pessoas diferentes de nós, humanos modernos, e parecidas demais conosco.
O misto de identificação e estranhamento espelha o que ocorre na página entre espécies irmãs e se reflete nas palavras que dão corpo à narrativa. O anacronismo intrínseco ao projeto se submete de tal forma ao realismo temperado por expressionismo da prosa que o compreendemos como tradução.
As (raras) referências a sapiens e neandertais não soam como cientificismo, mas como formas de nomear diferenças óbvias. “Embora ninguém saiba contar, são doze cavalos. São doze inacreditáveis cavalos”, diz a voz que narra.
Paulliny jamais abusa dessa licença concedida pela linguagem literária, que é escolada em dar voz à consciência animal, como no caso da Baleia de “Vidas Secas”, e até à de objetos –por que não à de humanos do Pleistoceno?
O livro nunca apela à poetização da prosa que marca parte significativa da ficcão brasileira atual, mas atinge uma poética maior. Flagra a linguagem humana numa emocionante infância –uma das mais poderosas tecnologias da espécie, ao lado do domínio do fogo e da confecção de ferramentas, e com certeza a mais engenhosa.
Só a literatura pode chegar aí, porque esse é um problema das palavras. No cinema, as imagens trariam informação demais de um lado, desengajando a imaginação, e informação de menos do outro.
Faltaria a tensão da linguagem –dos nomes com que ela meio reflete, meio inventa as coisas–, máquina do tempo capaz de criar a ilusão da convivência com humanos pré-históricos sem o intermédio de uma encenação. A literatura brasileira agradece.
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