Não é segredo que o PIB (produto interno bruto), o número que serve como medida de progresso econômico em todo o mundo, dificilmente é um termômetro do florescimento humano.
Ele registra a colheita de uma floresta com a receita de madeira, por exemplo, sem reconhecer a erosão e a degradação da qualidade da água resultantes. Mede os gastos com hospitais, mas não a saúde das pessoas. Um regime autoritário pode ter uma boa pontuação, mesmo que acumule riqueza e seu cidadão mediano viva na pobreza.
Por décadas, economistas tentaram criar uma métrica alternativa para refletir um panorama mais amplo de prosperidade, o que mudaria os objetivos que as nações tentam alcançar. Comitês foram convocados e instituições internacionais introduziram índices e estruturas para avaliar vulnerabilidade, bem-estar e capital natural.
Mas nenhuma dessas tentativas teve ampla aceitação. Então, no ano passado, a ONU (Organização das Nações Unidas) criaram uma comissão para elaborar um conjunto mais focado de indicadores que pudesse finalmente tirar parte da atenção dedicada ao PIB.
O resultado, divulgado neste mês, é um painel de 31 métricas agrupadas em quatro categorias representando paz e direitos humanos, sustentabilidade, qualidade de vida e desigualdade. Inclui a proporção de pessoas que se sentem confortáveis caminhando em seu bairro após o anoitecer, a parcela de riqueza do 1% mais rico e o número de mortes relacionadas a conflitos a cada 100 mil pessoas.
O painel é mais conciso do que as centenas de pontos de dados que sustentam os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) estabelecidos pelas Nações Unidas em 2015. António Guterres, o secretário-geral da ONU, cujo mandato termina este ano, chamou o novo painel de complemento ao PIB e implorou aos delegados que o adotassem em seus próprios países.
“O relatório também é um chamado à ação: vamos contar o que importa”, disse ele.
CRÍTICAS
A proposta está longe de ser o parâmetro direto encapsulado no PIB, e já atraiu críticas.
Semanas antes da divulgação da proposta, uma carta assinada por 58 especialistas, incluindo professores de Oxford, Cambridge, Harvard e Yale e um ex-presidente da Assembleia Geral da ONU, argumentou que a comissão havia desperdiçado seu mandato ao selecionar indicadores demais.
“É difícil imaginar qualquer aspecto do bem-estar que plausivelmente ficaria fora de uma estrutura tão extremamente ampla”, diz a carta. Os signatários, que vêm principalmente do campo da economia ambiental, pediram a adoção de uma medida mais holística de riqueza, incluindo elementos como saúde pública e recursos naturais. O Banco Mundial divulgou a edição mais recente de um desses sistemas de medição em 2024, para complementar o foco do PIB na renda.
Robert Smith, ex-diretor de contas ambientais da agência nacional de estatísticas do Canadá, que orquestrou a carta, chamou o esforço da ONU de bem-intencionado, mas indisciplinado.
“Isso não vai competir com o PIB”, disse Smith. “Os países vão olhar para isso e dizer: ‘Vamos criar nosso próprio conjunto de indicadores’ ou ‘É ridículo, e vamos continuar com o PIB’.”
Durante a apresentação do relatório neste mês pelo grupo de especialistas e funcionários da ONU, uma aliança de pequenos países insulares apontou que outros indicadores alternativos servem a um propósito semelhante e já estão ganhando força.
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“Reabrir ou replicar este trabalho sob um rótulo diferente arriscaria fragmentação e diluiria o impulso político”, disse Ilana Seid, representante de Palau na ONU. Além disso, ela observou, muitos países pequenos não têm recursos para compilar grandes volumes de dados. “A proliferação de indicadores acarreta custos e restrições reais de capacidade”, acrescentou
O processo também expôs divergências sobre como tal métrica alternativa seria usada. A Costa Rica, que estava entre os países que pediram a comissão, está principalmente interessada em usar uma medida alternativa ao PIB para obter condições de empréstimo mais favoráveis.
O relatório da comissão não disse se instituições de desenvolvimento como o Banco Mundial deveriam usar sua estrutura para subscrever empréstimos. No entanto, um representante falando pelo Canadá, Austrália e Nova Zelândia disse às nações reunidas no evento de lançamento que seu grupo se opunha a isso, dados os outros indicadores já disponíveis.
Nora Lustig, economista argentina do El Colegio de México que estuda desigualdade, entende as reclamações. Lustig disse que estava cética quando o gabinete do secretário-geral pediu que ela ajudasse a liderar a comissão.
“Não é por falta de esforço que não temos um concorrente além do PIB”, disse ela. “É porque não conseguimos chegar a um acordo.”
O relatório é resultado de um compromisso. Os membros da comissão vieram de muitas disciplinas e consultaram proponentes de várias escolas de pensamento sobre a melhor forma de medir o que mais importa. Eles tentaram reduzir o número de indicadores, mas cada um tinha defensores fortes.
“Se você não tem paz e segurança e os direitos humanos são violados e o planeta se foi, você não pode ter nenhum bem-estar”, disse Lustig. “Eles são primordiais, em certo sentido.”
Uma divergência central foi se deveria haver um painel ou se os indicadores deveriam ser agregados em um composto —como o PIB— que pondera cada componente por sua importância. Lustig disse que passou a acreditar que essa era a abordagem correta e está levando a pesquisa adiante com um grupo de acadêmicos que pensam de forma semelhante.
Um membro da comissão e defensor inicial de uma alternativa ao PIB é Joseph Stiglitz, o ex-economista-chefe do Banco Mundial vencedor do Prêmio Nobel. Ele disse acreditar que um painel de indicadores seria melhor porque achatar os elementos díspares do bem-estar em um único número derrotaria o propósito do exercício. Após anos de debate internacional, disse ele, uma prescrição de cima para baixo pode não ser o melhor caminho a seguir.
“É preciso um diálogo nacional para decidir quais são as coisas importantes”, disse Stiglitz. “Talvez depois que vários países fizerem isso, seremos capazes de ter uma noção de quais são as métricas que funcionam para orientar políticas e motivar cidadãos.”
Vários países estão experimentando o painel. O Canadá tem uma “estrutura de qualidade de vida” integrada aos processos orçamentários e comunicações públicas. Kari Wolanski, uma funcionária da agência federal de estatísticas do Canadá, está trabalhando com uma comissão separada da ONU para projetar métricas sociais e demográficas uniformes. A ideia é que o Canadá pode escolher indicadores diferentes dos do Chile, por exemplo, mas todos são intercambiáveis.
“Você pode apresentar isso a diferentes públicos com diferentes marcas, mas produzir por baixo um trabalho que é internamente lógico e coerente”, disse Wolanski.
Mas essa estratégia pode não levar tão cedo ao sistema universalmente compreendido que tornou o PIB tão poderoso. Kaushik Basu, economista da Universidade Cornell e copresidente da comissão do PIB da ONU, disse que temia que os países não usassem indicadores que os fizessem parecer mal.
“Você não pode esperar que uma nova medida seja adotada voluntariamente, com todos os países aderindo, porque alguns são vencedores e alguns são perdedores”, afirmou Basu.
Ele disse que esperava que a ONU pressionasse seus Estados-membros a participar. O PIB ganhou força apenas porque os Estados Unidos o exigiram na conferência de Bretton Woods no final da Segunda Guerra Mundial, onde as nações estabeleceram as instituições financeiras internacionais que perduram até hoje.









