Gregorio Duvivier leva Aos Pés da Letra à Feira do Livro – 03/06/2026 – Ilustrada

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Julieta chega para Romeu e pergunta: o que há num nome? “Se outro nome tivesse a Rosa, em vez de rosa, seria por isso menos perfumosa?”

Gregorio Duvivier suspeita que sim. Se ela se chamasse, sei lá, Valentina, capaz de ter cheiro de body splash de baunilha da Victoria’s Secret. Se fosse Alzira, cheiraria a bolo de fubá saindo do forno da vovó.

O ator, escritor e humorista apresentou a rinha de nomes nesta quarta (3), para uma audiência lotada na Feira do Livro, que transbordou da tenda principal e ocupou toda a praça central em frente ao Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

A tese faz parte do seu novo livro, “Aos Pés da Letra”, editado pela amiga poeta Alice Sant’Anna na Companhia das Letras.

A mesa fugiu do formato clássico de debate. Duvivier se apresentou sozinho, num monólogo, ele e um projetor para destacar num telão palavras e “despalavras” que o fascinam, como as inventadas pela filha Celeste, 3: “Papai, me desmolha?”.

“Aos Pés da Letra” tem o mesmo espírito de “O Céu da Língua”, seu best-seller teatral sobre a língua portuguesa em toda sua glória, e sua inglória também.

Duvivier, formado em letras pela PUC-RJ, é um autoconfesso stalker do tema. Persegue curiosidades e contradições da língua que, para o húngaro Paulo Rónai, soava como “idioma de passarinhos”.

Levou ao palco exemplos que povoam seu livro.

O prefixo “des-“, por exemplo, serve para propósitos que vão além do simples ato de desfazer uma ação. Um recurso tipicamente brasileiro é a desconversa, que não significa parar de falar, mas sim continuar falando para desviar o assunto daquilo que não se quer discutir.

Duvivier não desconversa sobre o que tem na cabeça quando explora o termo “calvo” —bem mais cruel do que “careca”, argumenta. Ele mesmo diz que nunca admitirá que é calvo, no máximo está calvo. Um estado transitório. Ou, como já ouviu do seu cabeleireiro, seu cabelo é um “topete piscina”: cheio, mas dá pra ver o fundo.

Gosta desta passagem da Bíblia: o profeta Eliseu, enfurecido por ser chamado de calvo, solta uma maldição em nome de Deus contra uns rapazes. “Então duas ursas saíram do bosque e despedaçaram 42 daqueles meninos”, diz o Livro dos Reis.

Nem quando Jesus foi crucificado Deus usou o mesmo expediente, o autor brincou. “Imagino Jesus na cruz esperando alguma ursa sair de trás da moita. ‘Papai fez isso pelo Eliseu, sei que ele vai fazer por mim também.’ Nada.”



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