Se o Fórum de Lisboa é um Gilmarpalooza, um dos headliners é Thomas L. Friedman. Em palestra apresentada por Gilmar Mendes e moderada por André Esteves, nesta terça-feira (2), na capital portuguesa, o colunista do jornal americano The New York Times descreveu a ascensão da inteligência artificial como um segundo big bang.
A humanidade, disse o autor de “O Mundo é Plano”, extensa análise da globalização em um já distante 2005, está próxima de brincar de Deus. Algo que poderia até soar como recado irônico em um evento criticado por reunir brasileiros poderosos, aparentemente alheios à crise institucional do país e a um Atlântico de distância.
Não era a intenção de Friedman, que já esteve no Fórum em 2024, período que também já parece ter ocorrido “décadas atrás”, declarou o dono do BTG, em inglês, em sua introdução.
“Nós, como espécie, nos tornamos semelhantes a Deus de sete maneiras diferentes. Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo, e nós nos tornamos semelhantes a Deus de sete maneiras diferentes”, afirmou o jornalista. “Em primeiro lugar, criamos um cérebro artificial superior ao que o Criador nos concedeu. Desligamos a inteligência da biologia humana. Nenhum homo sapiens jamais fez isso antes.”
Os homens criaram também um “sistema nervoso planetário de telecomunicações”, com o qual se ouve os sussurros uns dos outros, mesmo aqueles que não foram dirigidos a ninguém, mas captados por algum microfone; o ciberespaço, “uma nova galáxia”; a mudança climática; o deep learning.
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A última inovação, declarou o colunista, “entrará em cartaz em breve”: a composição de computação quântica, fusão nuclear e IA. “Capacidade computacional ilimitada, energia limpa ilimitada e IA”, explicou. “Nosso momento do Gênesis, em que poderemos desenhar qualquer coisa, apenas para você, um rim, um coração, músculos, em nível molecular.”
Falta, no entanto, um detalhe ao momento bíblico. “Temos como abrir o mar Vermelho, mas não temos os Dez Mandamentos. Não dispomos das estruturas legais, éticas e jurídicas necessárias para administrar esses poderes divinos. E agora precisamos de vinte mandamentos: dez para nós e dez para a IA. Um enorme desafio.”
O mundo passou de “plano para fundido”, disse Friedman, lembrando que nada disso existia há duas décadas, quando publicou seu best-seller. “Ele passou de um mundo que eu dizia ser interconectado, até mesmo hiperconectado, para um mundo que é interdependente. Dava para sair de um mundo plano. Do mundo fundido, não há saída.”
Nesse mundo, não há tarifaço ou Donald Trump que consiga fazer um iPhone ser fabricado em um único país. Cadeia de suprimentos é um dos cinco problemas planetários além da administração da IA, segundo o autor, que mostrou adorar listas em suas explanações. Questões sem soluções que não sejam igualmente planetárias, interdependentes, interconectadas: crise do clima, armas nucleares e biológicas, imigrações e pandemias.
Provocado por Esteves a falar de EUA e China, Friedman afirmou que os dois países, líderes da atual corrida pela IA, são os primeiros responsáveis por uma tentativa global de regulação da área. “EUA e a China colaborando em IA? O que poderia ser mais ingênuo do que isso? Só uma coisa: achar que ficaremos bem se não o fizermos. Temos que fazê-lo, e é por isso que precisamos nos despolarizar, nos destribalizar e nos desintoxicar mais rápido do que qualquer outra espécie na história da humanidade.”
O Brasil virou exemplo na hora de o jornalista explicar o “despolarizar”. Desintoxicar-se significa afastar-se das redes sociais, “pois a democracia está assentada em dois pilares: verdade e confiança”. “Se não sabemos o que é verdade, não sabemos para onde ir. Se não temos confiança, não podemos seguir juntos. Se não podemos seguir juntos, não conseguimos resolver nada que seja grande e difícil”, disse Friedman.
“As redes sociais são inimigas da verdade e da confiança.”
Desfalcada de lideranças políticas e da cúpula do Judiciário nacional —dos colegas de Gilmar no STF, apenas o ministro Alexandre de Moraes prestigia o evento— a programação do Fórum de Lisboa prossegue até quarta-feira (3). O encontro, que já está em sua 14ª edição, a despeito das críticas, é organizado pelo IDP, instituição de ensino da qual o decano do Supremo é sócio-fundador, e pela FGV.









