O empresário Adalberto Amarílio dos Santos Junior, 35, era um grande admirador de motocicletas. Há um ano, ele e um amigo foram ao autódromo de Interlagos, na zona sul de São Paulo, para uma exposição da modalidade. Era sexta-feira, 30 de maio.
Ao final do dia, a dupla se separou. O colega seguiu para casa. Adalberto, não. Começava ali uma história que até hoje permanece sem respostas.
As buscas se iniciaram. Depoimentos foram tomados. E na terça-feira, 3 de junho, o corpo foi encontrado.
O cadáver estava dentro de um buraco em uma área de terra em obras, no interior do principal circuito de corridas da América do Sul —palco de shows internacionais e do Grande Prêmio de Fórmula 1, por onde milhares de pessoas passam a cada evento.
O que a perícia revelou alimentou ainda mais o mistério. Adalberto estava sem calça e sem calçados. Estava de pé. Sobre a cabeça, um capacete. Nada havia sido roubado. Carteira, dinheiro e cartões permaneciam com a vítima.
O laudo do Instituto Médico Legal confirmou o homicídio: morte por asfixia. No dia, cerca de 200 vigilantes atuaram no evento. A suspeita inicial era que Adalberto tivesse sido morto após se envolver em uma confusão com seguranças terceirizados. A empresa responsável disse colaborar com as autoridades.
As câmeras registraram apenas alguns de seus passos pelo autódromo. Não há registros do momento do crime.
“É difícil descrever o sentimento. Um ano de muito sofrimento para a família e, ainda, tudo mais angustiante sem uma resposta. Aguardamos uma resolução e que os culpados sejam punidos”, disse à Folha, na quinta-feira (28), a esposa da vítima, Fernanda Dândalo, 35.
“Um lugar de alta visibilidade, de eventos internacionais, sem nenhuma segurança para os frequentadores”, acrescentou ela.
O caso é investigado pelo DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa). Fernanda diz que a unidade mantém contato regular, informando sobre os passos da apuração.
“Minha vida mudou completamente, como se um furacão tivesse passado e levado tudo. Aos poucos, os pedaços começam a ter seus lugares, já não mais como antes. Minha vida nunca mais será a mesma. Deus tem nos sustentado até o presente momento, é tudo muito dolorido e as memórias não se apagarão”, acrescentou Fernanda.
A reportagem apurou com policiais do DHPP que o caso é tratado como prioridade, com um delegado e dois investigadores dedicados à investigação. A conclusão dos laudos ainda é aguardada e pode auxiliar na busca pelo que ocorreu.
Os policiais criticaram uma falta de cooperação da empresa de segurança privada ESC Fonseccas, contratada para o evento.
Conforme eles, a listagem com os nomes de todos os funcionários que trabalharam naquela data foi entregue pela metade. Os celulares também demoraram a ser disponibilizados, em alguns casos, seguranças afirmaram aos policiais que aparelhos estavam quebrados, haviam sido perdidos e outros eram novos.
“Nós não paramos. Temos uma equipe que não saiu do caso. É um caso que me incomoda bastante. Todo mundo inconformado”, disse a delegada Ivalda Aleixo, diretora do DHPP.
Em nota, a ESC Fonseccas afirmou que sempre colaborou integralmente com as investigações relacionadas ao falecimento de Adalberto.
“Desde o início da apuração dos fatos, todos os documentos e informações solicitados pelas autoridades competentes foram devidamente apresentados pela empresa, inexistindo qualquer negativa de fornecimento de dados ou de colaboração com a investigação.”
“Em relação à alegação de que a empresa não teria fornecido a totalidade dos nomes dos funcionários que atuaram na data dos fatos, cumpre esclarecer que a solicitação recebida à época referia-se especificamente aos integrantes da equipe operacional de segurança que prestaram serviços no evento. Por essa razão, foram encaminhadas as informações correspondentes aos profissionais vinculados à operação de segurança. Não houve solicitação para apresentação da relação completa de funcionários dos setores administrativos da empresa.”
A ESC Fonseccas disse permanecer à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais que se façam necessários, reafirmando seu compromisso com a transparência.
A empresa prestou solidariedade aos familiares e amigos de Adalberto, e acrescentou que compartilha do desejo de que o caso seja definitivamente esclarecido o mais breve possível, para que a família obtenha todas as respostas necessárias acerca dos fatos investigados.
Em março deste ano, foram realizadas buscas e apreensões no âmbito da apuração.
Em casa, Fernanda mantém tudo como estava. “Não mexi em nada, nem de lugar. Tudo exatamente igual ao dia 30 de maio.”









