Já ouviu falar na Virginia Fonseca? Uma colega aqui da Folha, a Natalia Beauty, em sua coluna “Odeiam Virginia na Copa porque ela revela verdade humilhante: audiência vale mais que currículo”, disse que parte do Brasil para quando Virginia fala. Confesso que não a conhecia até ela aparecer de moletom na CPI das Bets.
Recentemente, Virginia foi convocada pela Globo para cobrir os bastidores da Copa do Mundo, o que motivou uma série de críticas dizendo que ela não tem credenciais para isso. Alguns foram bem rudes com a moça.
Então, a Natalia bem destaca que a Globo apenas seguiu a lógica da audiência e que isso acaba incomodando as pessoas que passam um bom tempo estudando e não alcançam o reconhecimento esperado. Porém, ela infla essa observação em uma visão de mundo onde o valor comercial engole todos os outros valores, onde audiência parece ser a única métrica que importa e quem questiona está simplesmente em negação.
O que tem de discretamente engraçado no texto é que ele critica quem valoriza credenciais acima de resultados, mas valida sua própria posição apelando para a lógica de mercado como se essa lógica estivesse acima de qualquer questionamento. “O mercado já sabe o que o povo se recusa a aceitar”, afirma Beauty.
Então, surge uma dúvida: isso é um argumento ou é uma espécie de fundamentalismo de mercado? E o que acontece quando a lógica do entretenimento e da audiência coloniza cada espaço que antes obedecia a outros critérios?
Perceba que esse debate não é tão inocente quanto pode parecer em uma primeira leitura, pois, se uma expressiva parte de uma geração começa a internalizar que só vale a pena investir em si mesmo quando gera audiência, o fluxo de pessoas dispostas a fazer os mais diferentes trabalhos pode começar a diminuir. Então, no final do dia, quem vai produzir o pão para alimentar o “circo”? Quem vai operar seu coração se você precisar? A Virginia?
Não sei se foi a intenção da Natalia, mas senti que o texto comete um clássico erro que aparece muito em conteúdo de negócios. Ele trata o mercado como se fosse um árbitro neutro da realidade, quando o mercado é apenas um mecanismo que reflete os incentivos do momento. E incentivos do momento não são o mesmo que valor.
Minha intenção não é negar a poderosa força do mercado. Em muitos casos, ele organiza preferências dispersas, premia eficiência, corrige arrogâncias corporativas e obriga instituições acomodadas a prestar atenção a públicos que antes eram ignorados. Porém, essa inteligência parcial do mercado não pode ser tratada como medida total do valor das coisas.
Ainda mais que essa grande entidade já errou e errou muito. O mercado pagou fortunas por títulos subprime em 2007. E, se audiência fosse sinônimo de valor real, o programa do Ratinho teria produzido mais bem-estar social do que o Roda Viva. O programa pode até gerar algumas risadas, só que dificilmente deixará no país algo mais duradouro do que o rastro passageiro da própria audiência.
No fim, quando o mercado vira o único tribunal do que vale, perdemos a capacidade de criticar qualquer coisa que venda bem. O texto critica os especialistas por serem ingênuos sobre como o mundo funciona, mas ele próprio é ingênuo sobre os limites da lógica de mercado como bússola moral ou epistemológica.
O texto é uma homenagem à música “Bate Coração”, interpretada por “Clã Brasil & Marinês – Bate Coração”.
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