Acusação de espionagem é cortina de fumaça, diz Keeta – 27/05/2026 – Economia

Acusação de espionagem é cortina de fumaça, diz Keeta - 27/05/2026 - Economia

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A acusação de espionagem feita pelo iFood contra a recém-chegada Keeta não passa de cortina de fumaça, empresa dominante no mercado brasileiro de delivery, , diz o vice-presidente da empresa de capital chinês, Danilo Mansano.

Para o executivo, as acusações de um processo ajuizado no dia 19 servem para esconder a nota técnica do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) que viu indícios de descumprimento de um acordo sobre contratos de exclusividade firmado em 2023.

O órgão antitruste enumerou sinais de que o iFood retalia restaurantes que aderiram a plataformas concorrentes, reduzindo a exposição dessas lojas no aplicativo e derrubando o faturamento dos estabelecimentos.

O iFood, por seu lado, acusa a Keeta de abordar funcionários oferecendo dinheiro em troca de informações sigilosas e pede na Justiça uma indenização de R$ 1 milhão.

“Essas alegações não procedem. Para a gente, é basicamente uma cortina de fumaça para esconder o que o Cade está investigando”, afirmou Mansano ao C-Level Entrevista, videocast semanal da Folha. A Keeta é o braço internacional da gigante chinesa Meituan, maior empresa de delivery do mundo.

O executivo diz que a Keeta veio para ficar e que aplicará os R$ 5,6 bilhões em investimentos que prometeu, mas ressalta que não conseguirá expandir pelo Brasil enquanto as autoridades não regularem melhor os contratos de exclusividade e acabarem com as cláusulas de banimento —em que a plataforma concorrente troca um investimento inicial pela garantia de que o restaurante não vá operar na Keeta.

A Keeta opera na região metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista. Tem 40 mil restaurantes na plataforma, em grande parte pequenos negócios, afirma Mansano.

O que trouxe a Keeta ao Brasil?

Um dos critérios foi o fato de ser o único país do mundo em “food delivery” em que existia um monopólio, com mais de 80% do mercado concentrado num único player. A gente viu uma oportunidade muito grande de esse mercado crescer num patamar muito mais acelerado do que os outros mercados mais consolidados.

Qual é o potencial de expansão do mercado?

A gente acredita que hoje o mercado brasileiro de entrega de refeições comporta atender 80% da população urbana brasileira, e dessa, 110 milhões de pessoas fazendo pelo menos um pedido por mês.

Em mercados mais desenvolvidos, as pessoas usam o delivery para se alimentar, no sentido de conseguir usar com uma frequência muito grande nos dias úteis. No Brasil, é um mercado de indulgência, com picos noturnos, às sextas, sábados e domingos.

As pessoas precisam de uma solução que entregue um alimento de qualidade, que possa ser frequente no dia a dia, e que tenha um tempo de entrega que consiga preencher essa lacuna de uma hora para o almoço. Foi isso que a gente viu de potencial no mercado brasileiro.

A Keeta têm reclamado dos contratos de exclusividade e das cláusulas de banimento praticadas pela concorrência. Qual foi o cenário que vocês encontraram aqui?

A gente montou um time de mais de 1.000 colaboradores e fez um trabalho quase de IBGE, porque o nosso time comercial entrou em contato com todos os canais de restaurante. Vimos que mais de 55% das redes estavam sob algum tipo de exclusividade ou [de cláusula de] banimento em relação à Keeta.

Em março, o Cade abriu uma investigação sobre as cláusulas de banimento da 99Food. No último dia 15, apontou indícios de descumprimento de acordo com o iFood sobre contratos de exclusividade, o que pode levar a sanções. Qual é a importância da atuação do órgão para viabilizar a operação de vocês no Brasil?

Fundamental. Inclusive, [os contratos de exclusividade são] o motivo de a gente ter postergado o lançamento na cidade do Rio de Janeiro, [para o qual] já tínhamos mais de 17 mil restaurantes cadastrados na plataforma, 27 mil entregadores e um orçamento esperado de R$ 400 milhões.

O que acontece é que as redes grandes estão sob exclusividade ou banimento pela 99 e as redes médias estão sob exclusividade com o iFood. Boa parte dos contratos de exclusividade e de banimento foram feitos antes de a Keeta chegar no Brasil.

Você está dizendo que a 99Food faz o que o iFood está proibido pelo acordo com o Cade de fazer.

Perfeito. O iFood não pode ter exclusividade com uma rede como Burger King e McDonald’s, mas a 99 pode.

E ela tem?

Existem várias dessas [redes] que têm. Acho que é muito fácil você ver quais restaurantes grandes, relevantes, não estão listados na Keeta e que estão listados no concorrente. Você vai imediatamente descobrir quem pegou esse valor para não trabalhar com a Keeta.

Essas cláusulas de banimento foram uma reação à chegada da Keeta?

Foi uma preparação à [nossa] chegada porque quem opera no mercado de food delivery sabe que a Meituan é a referência do mundo em tecnologia, em volumetria, em capacidade de gestão.

Outros aplicativos deixaram o Brasil por conta das condições difíceis do mercado de delivery aqui. Se o mercado permanecer igual, isso inviabiliza a operação de vocês?

A gente veio para ficar. O valor do comprometimento de investimento assinado entre o presidente Lula e o fundador da Meituan, Wang Xing, em Pequim, é de R$ 5,6 bilhões. Isso não muda.

O que muda é o foco da companhia em garantir que o problema de hoje seja resolvido o quanto antes. Enquanto a gente não tiver essa tratativa de exclusividades regulamentada, banimento proibido, a gente não vai expandir, a gente vai manter nas praças de operação que a gente tem hoje.

E esse investimento de R$ 5,6 bilhões cai para quanto?

Ele não cai, ele fica aqui. O dinheiro já está no Brasil.

Como é o contato da Keeta com restaurantes que têm cláusula de exclusividade ou de banimento? Vocês oferecem algum tipo de compensação para que essas lojas rompam os contratos?

Eu levei uma comitiva de redes, algumas delas sob exclusividade ou sob o banimento, para a China comigo, para entender o que é a tecnologia Meituan, o que é o modus operandi da empresa. E sempre falei para eles que o foco da empresa é longo prazo.

E aí a gente vai tratando caso a caso. Mas de novo, o principal fator não é a Keeta não oferecer algum tipo de compensação. O principal fator detrator para esse restaurante não se sentir confortável nesse momento trabalhar com a Keeta é o medo de retaliação.

Essa retaliação não seria ilegal?

Curiosamente, essa semana saiu muito na mídia sobre espionagem. O iFood acusa a Keeta sobre espionagem. Essas alegações não procedem. Para a gente, é basicamente uma cortina de fumaça para esconder o que o Cade efetivamente está investigando.

Isso foi anunciado semana passada, sobre essas práticas de não cumprimento à determinação de 2023 do iFood, e diversos casos sobre retaliação a restaurantes que estão tentando quebrar seu contrato de exclusividade.

O iFood juntou no processo registros de reuniões de pessoas da China e do Brasil com funcionários do iFood, e alguns dos e-mails registrados ali terminam com “@meituan”. Como vocês respondem a essa questão especificamente?

É o que eles falaram, a gente está esperando a notificação. Assim como eles com certeza conversam com muitas pessoas, a gente também tem ex-funcionários de outras plataformas trabalhando na Keeta. Agora, isso não indica que existiu uma espionagem.

A regulamentação do trabalho nos aplicativos ficou para o ano que vem, após divergências entre governo e relator. Qual é a posição de vocês sobre o tema?

A gente acredita que a regulamentação é importante. Qualquer que seja ela, uma vez tendo o debate entre todas as partes que são impactadas, a regulamentação mais ajuda do que atrapalha

Vocês apoiam a proposta do governo de um valor mínimo de R$ 10 por corrida?

Existem diversas maneiras de se implementar garantias melhores para entregador. Ao colocar um piso de R$ 10, o que acontece é que o mercado diminui. Esse valor que vai ter que ser repassado ao cliente final e vão ter menos clientes interessados em consumir os produtos de delivery. Tendo menos clientes interessados em fazer pedidos, vai ter menos receita por entregador.

No final do dia você tem que ter alguns guardrails [proteções] para o entregador se sentir interessado em usar isso como fonte de renda. Mas o que vai garantir a retenção e a qualidade de ganhos desse entregador é a competitividade aberta entre plataformas.

Qual seria a alternativa?

Por exemplo, uma remuneração por hora. Isso resolve.

Qual é o diferencial da Keeta para o consumidor?

O impacto mais imediato da experiência é o tempo de entrega. Se a gente não entrega em 25 minutos por algum motivo, a gente se compromete a dar um cupom de desconto.

Há alguns anos, uma rede famosa de restaurantes também fez uma promoção de 28 minutos ou seu dinheiro de volta. Houve relatos de acidentes e descontos no salário dos motoqueiros. Esse atrativo não incentiva um comportamento imprudente dos entregadores no trânsito?

O comprometimento com a segurança do entregador é primordial para a gente. Temos equipamento de entrega, capacetes de monitoramento de velocidade, de mão contrária na via —a gente monitora esse tipo de coisa. Em caso de acidente, nosso capacete tem um acelerômetro que contata imediatamente uma central.

A tecnologia permite que os pedidos saiam num tempo de entrega menor. A gente monitora com inteligência artificial os tempos de preparo dos pratos. Uma vez que o pedido saiu do restaurante, o aplicativo vai ter o ranqueamento dos seus restaurantes alterado para beneficiar aquele entregador a conseguir pegar mais pedidos ao longo da rota. E aí você tem um tempo de entrega muito menor.

A concorrência reclama que a Keeta entrou no mercado com uma bolada no Brasil, o que permite praticar margens menores. Como é que vocês respondem a essas críticas?

As pessoas têm o que a gente chama de custo de mudança. Precisam entender quanto isso aqui vai beneficiar para eu baixar mais um aplicativo. Essa barreira tem que ser quebrada. E sim, o cupom é uma das ferramentas que a gente pode usar para poder fazer essa barreira ser quebrada.

Agora, se eu sou o detentor do monopólio e estou confortável na posição que estou, eu sempre vou subir o tom para tentar proteger aquilo que talvez não seja o melhor para o país.


Raio-X | Danilo Mansano, 40

Engenheiro formado pela Unicamp, estudou também nas universidades TU Delft (Holanda) e Comillas (Espanha). Vice-presidente da Keeta, já trabalhou em outras empresas de tecnologia, como Uber, 99 e DiDi.

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