DNA explica união de ‘Homo sapiens’ com outras espécies – 03/06/2026 – Darwin e Deus

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Quem se acostumou a considerar como verdade absoluta o chamado conceito biológico de espécie, que muita gente ainda aprende na escola (algo como “são membros da mesma espécie os organismos capazes de se acasalar entre si e produzir descendentes férteis”) talvez esteja meio confuso com os últimos anos de pesquisas sobre o DNA da nossa espécie e de nossos primos extintos.

Afinal de contas, cada vez mais fica claro que o Homo sapiens e outros membros do gênero Homo geraram bebês entre si, por meio de uniões interespécies que aconteceram repetidas vezes ao longo da Era do Gelo. Ora, se o resultado desses “casamentos” deixa marcas no nosso material genético até hoje, o correto não seria classificar todos esses ancestrais dentro da mesma espécie? Descendentes férteis foram gerados com sucesso estrondoso, certo?

Bem, não exatamente. O que nos acostumamos a enxergar como uma barreira intransponível entre espécies na verdade é, dependendo do contexto, um muro esburacado ou uma peneira, bastante permeáveis a trocas. No caso de mamíferos como nós, um caso extremo é o dos felinos, que já tive o prazer de discutir em outra coluna para esta Folha.

Existem raças de gatos domésticos derivadas do cruzamento com espécies selvagens, como o serval (Leptailurus serval), que divergiram dos ancestrais dos bichanos domesticados há mais de 10 milhões de anos. Em termos evolutivos, é muito tempo, ao menos da perspectiva da nossa linhagem –é bem possível que, nessa profundidade temporal, os antepassados de gorilas, chimpanzés e seres humanos nem tivessem se separado ainda.

No caso dos felinos, parece que a arquitetura do genoma é bastante conservadora de modo geral, o que permite que o DNA de espécies diferentes “converse” com mais facilidade. Mas, em qualquer grupo de animais, é importante enxergar a especiação, ou seja, a diferenciação que produz novas espécies, como um processo gradual ao longo do tempo.

A visão clássica a esse respeito envolve o isolamento geográfico: surge uma barreira entre duas populações da mesma espécie (um novo rio, uma nova cadeia de montanhas), o que dificulta o contato entre os indivíduos de cada lado e faz com que eles só gerem filhotes com quem ficou do seu lado da barreira. A passagem do tempo faz com que esse processo leve à acumulação de diferenças genéticas entre as populações –talvez aleatórias, talvez importantes para a adaptação a circunstâncias específicas de um ou outro lado da divisa– até que, por fim, surge uma incompatibilidade reprodutiva entre as espécies “recém-nascidas”.

Tudo isso pode acontecer por motivos que não têm a ver com barreiras geográficas (mudanças na dieta ou na preferência por parceiros, por exemplo). A questão, porém, é que a troca de genes (os cruzamentos) entre populações pode ser retomada quando a incompatibilidade reprodutiva ainda é só parcial.

Tudo indica que isso é o que aconteceu quando, por exemplo, populações de Homo sapiens de origem africana encontraram grupos de neandertais no Oriente Médio e na Europa, assim como grupos de denisovanos na Ásia Central, que tinham surgido a partir de expansões anteriores a partir da África. Aliás, como mostrou o estudo mais recente sobre o tema, também parece ter acontecido isso quando os denisovanos encontraram uma expansão bem mais antiga, a dos Homo erectus asiáticos.

Tanto os genomas antigos quanto os das pessoas atuais indicam que esses encontros incluíam tanto ônus quanto bônus do ponto de vista evolutivo. De um lado, a incompatibilidade parcial parece ter afetado o sucesso reprodutivo dos indivíduos miscigenados, levando à remoção progressiva de parte da herança dos Homo arcaicos (“não sapiens“).

De outro, porém, a chamada introgressão (incorporação de genes de outras espécies ao nosso DNA) também foi favorecida pela seleção natural em diversos casos, segundo análises estatísticas. Esses genes arcaicos podem ter ajudado a nossa espécie a se adaptar aos novos ambientes que outras espécies já tinham colonizado.


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