Como ensinar o valor do dinheiro na era do Pix? – 02/06/2026 – Folha Social+

Como ensinar o valor do dinheiro na era do Pix? - 02/06/2026 - Folha Social+

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Contar moedas, receber troco na padaria e guardar as economias no cofrinho faziam parte da infância de gerações de brasileiros. Na era do Pix e dos pagamentos por aproximação, essa experiência está desaparecendo.

A transformação traz um desafio para pais e educadores: como ensinar o valor do dinheiro às crianças quando ele se tornou invisível?

“Essa é uma das perguntas mais interessantes e mais candentes no universo da educação financeira“, afirma Cássia D’Aquino, psicanalista, educadora e autora de livros como “Como falar de dinheiro com seu filho” (Benvirá, 2014).

Para D’Aquino, é um erro achar que as crianças das novas gerações, por terem grande familiaridade com telas e dispositivos digitais, estão preparadas para lidar com abstrações financeiras.

“O fato de uma criança de dois anos mexer em um tablet não a torna mais madura. Crianças continuam sendo seres concretos. É da natureza delas necessitar da concretude, e com dinheiro isso também acontece”, diz. “A capacidade de abstração vai se instalando devagarzinho a partir dos 10 ou 11 anos. E mesmo para adultos, é algo desafiador.”

Pesquisas em psicologia econômica mostram que as pessoas tendem a gastar mais quando não usam dinheiro em espécie — um fenômeno conhecido como “cashless effect”.

“O dinheiro digital tira a dor do pagamento”, resume Thiago Godoy, CEO da Papai Financeiro, fundador da Bem Educação e autor de livros como “Dinheiro em Família” (ed. Gente). “Comprar algo de R$ 1.000 em dinheiro é muito diferente de comprar dez parcelas de R$ 100 no cartão. A percepção muda. A materialidade tem função pedagógica mesmo para o adulto.”

Para crianças, cujo cérebro está formando as capacidades de autorregulação e pensamento abstrato, o efeito é amplificado.

Godoy lembra que o dinheiro, por si só, é uma abstração: um intermediário simbólico criado para facilitar as trocas. E essa invenção é recente em termos evolutivos. “A espécie Homo sapiens tem 300 mil anos. E o dinheiro foi inventado há 5.000 anos. Então essa correlação é nova, e o nosso cérebro ancestral não tem essa ‘fiação’ pronta.”

Segundo o especialista, quando o dinheiro vira apenas um número na tela, criam-se camadas adicionais de abstração, que podem levar a uma ruptura na compreensão de valor.

Vale lembrar que esse fenômeno não surgiu com o Pix. “Antigamente era um papel mágico, que era o cheque. Depois passou a ser o cartão mágico. E hoje temos o clique mágico e a aproximação mágica: você só aproxima e paga, nem senha a gente coloca mais”, observa Nacir Garcia Junior, formador de educação financeira do Instituto Brasil Solidário (IBS), que atua há mais de 40 anos na área e já treinou mais de 12 mil professores em escolas públicas do país.

Ele aponta a necessidade de explicar para as crianças o processo que está por trás das transações financeiras. “Quantas vezes os pais passam um cartão ou fazem um Pix na frente dos filhos sem explicar o que está acontecendo? Ela vê o cartão trocar por hambúrguer, brinquedo e viagem. Se ninguém explica, aquilo parece mágica mesmo.”

Para Cássia D’Aquino, esse é justamente um dos efeitos da invisibilidade do dinheiro digital: a perda da noção de processo. Ela também considera que dá para minimizar esse distanciamento por meio de conversas cotidianas.

“Função de pai e mãe é ir traduzindo o mundo. Precisamos dizer: o dinheiro está no banco, ele tem uma quantidade limitada e, cada vez que fazemos um Pix, um pouco desse dinheiro sai da nossa conta”, diz.

Faz sentido voltar ao dinheiro vivo e ao cofrinho?

Em um país que 82% das transações bancárias são feitas por canais digitais, segundo dados da Febraban, pode parecer anacrônico sacar dinheiro ou juntar moedas em um cofrinho. Mas é exatamente isso que os especialistas indicam que os pais façam, principalmente os que têm crianças de até 10 anos de idade.

“Como meu filho já é adulto, não me lembro quando foi a última vez que eu fui ao banco sacar dinheiro. Mas se eu tivesse filhos pequenos hoje, certamente eu faria isso e sacaria em cédulas miúdas. É chato? Pode ser, mas faz parte do processo de educação”, diz Cássia D’Aquino.

Adotar o cofrinho para as crianças menores é outra recomendação que todos os entrevistados corroboram. Se ele for transparente, melhor ainda. “A criança precisa ver o dinheiro acumular e depois desaparecer quando faz uma compra”, diz Godoy.

A visualização ajuda até mesmo crianças que ainda não dominam conceitos matemáticos. “Ela pode não entender que uma nota de R$ 100 vale mais do que várias notas de R$ 2, mas entende sobre quantidade, consegue perceber que há mais ou menos dinheiro ali”, explica.

Para crianças mais velhas, ferramentas como cartões ou apps de mesada podem ser introduzidas, desde que com acompanhamento ativo dos pais. Uma dica é adotar algum recurso visual, como gráficos no papel ou quadros de acompanhamento na parede.

Segundo pesquisa de 2025 do Serasa com 1.112 pais, 28% das crianças recebem mesada por meio de Pix, conta digital ou cartão, 36% tiveram acesso ao primeiro cartão ou conta entre os 12 e 14 anos e 39% já usam o Pix como forma de pagamento no dia a dia.

Godoy reforça que, independentemente de as ferramentas usadas serem físicas ou digitais, um dos conceitos principais a serem trabalhados é a “troca intertemporal” —a capacidade de abrir mão de um prazer imediato em favor de um benefício futuro maior. “Desenvolver esse autocontrole é o aprendizado mais complexo e relevante de todos”, afirma.

“A gente costuma associar educação financeira à matemática, mas o principal é o comportamento”, concorda Nacir Garcia Junior. “Prioridade, autocontrole, planejamento e capacidade de esperar são habilidades mais importantes.”

O educador também destaca o poder do exemplo dos adultos. “A família tem um papel muito importante porque a criança aprende por observação. Quem é o influenciador financeiro? Toda e qualquer pessoa que conviva com a criança.”

A Causa do Ano ‘Educação Financeira Transforma’ conta com o apoio do IBS (Instituto Brasil Solidário).

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