Curso de empoderamento masculino – 01/06/2026 – Vera Iaconelli

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Alguns começam uma análise em razão de um sintoma que os deixou sem resposta. Alguns se veem pressionados por familiares, chefes ou amigos. Manter um processo no qual você paga para escutar o que não quer escutar sozinho não é para todos, requer coragem. Numa análise, assume-se encarar o olho do furacão.

Bancar nossa parte no sofrimento do qual nos queixamos não é fácil. A sensação é de perda iminente de todas as garantias, risco de não saber mais quem se é. O saldo para quem sustentou o desconforto é a famosa liberdade. Não de fazer tudo, mas de assumir escolhas sem subterfúgios. Caminho suave? Porta errada.

Começo por aí para dizer que não espero menos do que isso dos homens que se queixam de estarem sofrendo por ter que rever os pressupostos da masculinidade patriarcal. De fato é sofrido, quem não prefere se enfiar debaixo das cobertas quando suas certezas são confrontadas?

A crítica é clara, todo homem se beneficia da injustiça entre os gêneros, mesmo que nem todos cometam atos escabrosos. A violência extrema cometida por alguns mantém as mulheres em permanente sobressalto, temendo impor seu desejo aos demais. Não cometer crimes não faz de ninguém um bom homem, exige-se que ele não se omita diante das injustiças que lhe dizem respeito.

Uma vez que o progressismo oferece a “humilhação” de se reconhecer parte do problema, e o conservadorismo, acolhimento, homens estão migrando para cursos de empoderamento. Esses encontros são não só efeito da reclamação, são a reprodução de um negacionismo que perpetua desigualdades.

Saldo final: a não adesão dos homens é responsabilidade das mulheres.

Nenhuma autocrítica funciona poupando-nos do desconforto. O argumento de que o progressismo perde porque afasta os homens da discussão transfere para as mulheres a responsabilidade pela revisão pessoal que eles devem encampar. Poupá-los de se reavaliar não é estratégia, é conivência.

Não poderia ser considerado sério um encontro de “empoderamento” só de mulheres brancas, porque a opressão sofrida por elas não cancela a opressão praticada por elas contra as mulheres negras. A mesma lógica vale para os homens: um encontro deles que não inclua a revisão das injustiças que eles cometem contra as mulheres não é fortalecimento, é cumplicidade.

Não esperamos deles menos do que impusemos a nós mesmas: refletir de forma crítica sobre as condições que nos foram impostas por sermos mulheres, brancas ou negras, pobres ou ricas. Não se trata de penitência, mas de responsabilização radical pelas mazelas das quais fazemos parte por ação ou omissão.

A pergunta que se tenta encobrir é fundamental. O que fazem, concretamente, os homens para se distinguir daqueles que consideram ser os verdadeiros agressores? Enquanto a resposta for de cunho individual, “não sou como os outros”, desvia-se a questão da responsabilidade enquanto grupo que se beneficia do poder sobre as mulheres.

O verdadeiro empoderamento masculino já está aí, e é fruto da autocrítica, não do negacionismo. Criou homens viris que amam e são amados sem submeter ou ser submetidos, sem ressentimento.

Eles não chegaram lá porque alguém os poupou, chegaram porque tiveram a coragem de encarar o olho do furacão


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