O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), se queixou a aliados sobre o que considera uma estratégia do governo Lula (PT) para acuá-lo e forçá-lo a colocar em votação rapidamente a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) do fim da escala 6×1. Ele afirmou, no entanto, que não agirá sobre pressão e que permitirá que os senadores debatam a matéria sem açodamento.
Alcolumbre identificou dedo do governo e da esquerda nos ataques que passou a receber nas redes sociais por causa da PEC. A esses interlocutores, afirmou que o Executivo quer uma votação expressa e que o Senado apenas carimbe o que a Câmara fez, mas ressaltou que este não é o perfil dos senadores e que os deputados tiveram mais de cinco meses para analisarem as consequências e definirem um texto.
Procurada no fim da tarde desta quarta-feira (3), a Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência não comentou até a publicação dessa reportagem.
Dois aliados do senador dizem que ele já reclamou em conversas reservadas sobre o momento de debate dessa proposta, que considera inadequado por causa do período eleitoral, o que cercearia a discussão. Por outro lado, reconheceu que o caráter popular da medida e que dificilmente o Senado segurará a votação se os empresários não convencerem a população sobre possíveis consequências negativas para o país.
Nesta terça (2), durante a sessão, o presidente do Senado contrariou o governo ao dizer que não levará a PEC diretamente ao plenário e que o texto vai passar pelo menos pela Comissão de Constituição e Justiça. “Essa é a minha percepção. Ela não é a favor nem é contra. Ela é a favor do debate, do diálogo, da construção, do entendimento”, disse.
Segundo ele, a Casa deve ter “tempo razoável para se desobrigar de um debate com essa envergadura e com essa magnitude, para que [os senadores] possam ler e interpretar o texto, ouvir os setores envolvidos, ouvir os trabalhadores, ouvir quem produz neste país, ouvir quem emprega, ouvir a classe operária”.
A declaração ocorreu após ele receber uma comitiva de empresários liderada pela Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo), no dia anterior à votação pela Câmara. No encontro, o presidente do Senado afirmou que é alvo de ataques de ambos os lados e que daria andamento à proposta, mas com um diálogo “adequado e sem açodamento”.
Dois representantes das empresas que participaram da reunião dizem que o grupo saiu do encontro com uma missão: ampliar a divulgação de que a PEC provocará um possível aumento dos preços de produtos e serviços para virar a opinião pública, hoje majoritariamente favorável ao fim da escala 6×1.
Só com essa mudança de perspectiva na sociedade, afirmam esses empresários, será possível dar conforto para que os senadores votem contra a proposta ou travem a discussão para até depois das eleições, período em que ficarão menos suscetíveis à pressão dos eleitores.
Para ser aprovada, a PEC depende do apoio de 49 dos 81 senadores em dois turnos de votações. Se o Senado modificar o texto, ele volta à Câmara para nova análise.
Folha Mercado
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Alcolumbre, de acordo com aliados, está irritado com a estratégia do governo de pressioná-lo por meio de mobilização popular a colocar a PEC rapidamente em votação, o que replicaria o slogan adotado no ano passado, de que o Congresso “é inimigo do povo”. O ministro da SRI (Secretaria de Relações Institucionais), José Guimarães, chegou a defender em entrevistas que o texto deveria ir direto ao plenário.
Militantes, políticos e partidos de esquerda, além de sindicatos, têm se mobilizado nas redes para cobrar dos senadores o voto favorável à PEC que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e garante duas folgas semanais remuneradas, uma delas preferencialmente aos domingos.
A CUT (Central Única dos Trabalhadores), por exemplo, lançou um site com as redes sociais e número de celular de cada senador de oposição que assinou a PEC para o pagamento por hora trabalhada. Ao clicar no link, uma mensagem automática é sugerida. “Votar SIM, é um ato de respeito e reconhecimento ao povo trabalhador!”, diz um trecho do texto de três parágrafos.
Governistas desconfiam que o presidente do Senado tentará atrapalhar os planos de votar a PEC antes da eleição, mas ainda não sabem o motivo por trás desse movimento. Parte deles afirma que o governo terá que ceder mais cargos e recursos para convencê-lo, e outro grupo suspeita de uma manobra para se aproximar ainda mais da oposição em busca de apoio para se reeleger à presidência em 2027.
Eles apontam que Alcolumbre não despachou a PEC do fim da escala 6×1 para a Comissão de Constituição e Justiça, mesmo passada uma semana de sua aprovação na Câmara, mas que atendeu a oposição e encaminhou a PEC do pagamento de salário por hora para a comissão no mesmo dia em que foi protocolada.
A relação dele com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está estremecida desde a indicação e a rejeição de Jorge Messias para ministro do STF (Supremo Tribunal Federal). Alcolumbre desejava emplacar na vaga o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), seu aliado e antecessor na presidência.









