Me surpreendi nos últimos dias ao me ver escalado como general (patente demais para o meu tamanho) de uma guerra que não há: a da independência político-linguística do idioma falado no Brasil, que eu estaria propondo rebatizar de “brasileiro”.
Primeiro foi o escritor angolano José Eduardo Agualusa em O Globo, depois o deputado português Rui Tavares nesta Folha. O mal-entendido parece se dever ao meu livro “Viva a Língua Brasileira!“, do qual seguramente leram só o título –sim, acontece com intelectuais também.
Se tivessem aberto o calhamaço de 384 páginas, encontrariam a seguinte frase inicial: “Este livro é uma declaração de amor à língua portuguesa brasileira. (…) Portuguesa porque foi inventada lá, brasileira porque faz mais de cinco séculos que a falamos aqui”.
Gostaria de tranquilizar lusoparlantes de todos os continentes que andem perdendo o sono com a possibilidade de se verem subtraídos dos 200 milhões de falantes brasileiros, das canções do Chico, dos poemas do Drummond etc. Entendo que seria um golpe duro para a “lusofonia”, mas não vai acontecer.
Não nos faltam diferenças reais, morfossintáticas –que estão se expandindo–, mas para chegar ao separatismo Brasil e Portugal precisariam entrar em guerra. Esse negócio de batizar língua é mais político do que linguístico, como vemos na separação entre romeno e moldavo, sérvio e croata, catalão e valenciano etc. Tranquilizai-vos, pois.
Mas então são bobagem, pura falta do que fazer, as questões linguísticas que acadêmicos e artistas brasileiros tentam elaborar ao dar o peso justo ao adjetivo nacional na expressão “português brasileiro”?
É o que Tavares sugere em forma de piada, provando que, no país europeu que vai mais atrasado na autocrítica do colonialismo, a língua é um tema em que progressistas e reacionários podem se irmanar.
A verdade é que a coisa é séria, questão cultural de fundo da sociedade brasileira, com impacto trágico na alfabetização precária de dois terços da população, no estado estropiado da escrita em toda parte e no crescimento metastático da anglofilia bocó, entre outras mazelas.
Que o português brasileiro tem sua própria norma, distinta da lusitana, é fato indiscutível. Em contraste com o que ocorre no inglês e no espanhol, com histórias inteiramente diversas, nenhuma tradução literária pode circular em ambos os países, o que é prova suficiente disso. Há muitas outras.
No entanto, 204 anos após a independência, nosso senso comum ainda chama a norma brasileira de “erro”. Diz que somos burros, incapazes de aprender as lusas ênclises, apegados a gerúndios e preposições bárbaras. Que portugueses pensem assim é problema deles. Que brasileiros repitam isso é problema –dos grandes– nosso.
Atualização normativa, revisão curricular, letramento real, ênfase em leitura e escrita em vez de pegadinhas e decoreba de zeugmas e outras irrelevâncias taxonômicas –tudo isso o Brasil vai precisar fazer mais cedo ou mais tarde, se quiser ser um país melhor.
Temos muito a ganhar, e a língua portuguesa também.
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