Até pouco tempo atrás, os Emirados Árabes Unidos consolidavam-se como um dos polos financeiros mais dinâmicos do mundo. Em 2025, tornaram-se o principal destino global para indivíduos de alta renda, recebendo cerca de 9.800 milionários, segundo a Henley & Partners.
Não por acaso, organizações sociais e negócios de impacto brasileiros passaram a buscar formas de acessar recursos na região.
Esse interesse ganhou força em meio à reconfiguração da arquitetura internacional do campo de desenvolvimento.
Esse interesse ganhou força em meio à reconfiguração da arquitetura internacional do campo de desenvolvimento. De acordo com a AOD (Assistência Oficial ao Desenvolvimento), no último ano, a ajuda internacional dos países membros e associados do Cad (Comitê de Assistência ao Desenvolvimento) caiu 23%. Isso representa a maior contração já registrada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
A redução da previsibilidade dos mecanismos tradicionais de financiamento (especialmente os provenientes do Norte global) amplia a pressão para que a filantropia assuma um papel mais relevante neste financiamento.
É aqui que os Emirados passaram a atrair atenção, não apenas como polo financeiro, mas também como um centro emergente para a filantropia estratégica.
Nos Emirados, doar nunca foi apenas uma questão financeira. Práticas como zakat, doação obrigatória destinada à redistribuição de renda, e a sadaqah, caridade voluntária incentivada pela tradição muçulmana, fazem parte de um tecido social em que solidariedade, religião e responsabilidade coletiva estão profundamente conectadas.
Mais recentemente, porém, lideranças como Badr Jafar, CEO da Crescent Enterprises e enviado especial da presidência dos Emirados para Negócios e Filantropia, vêm impulsionando uma visão mais estratégica da filantropia, conectando-a também a objetivos econômicos, sociais e de política externa.
Grandes fortunas locais, family offices e novas gerações de indivíduos de renda ultra alta vêm ampliando o interesse por filantropia e investimento de impacto, especialmente em processos sucessórios, nos quais propósito e legado ganham centralidade.
Esse fenômeno reflete uma transformação global mais ampla. Estima-se que mais de US$ 84 trilhões serão transferidos entre gerações até 2045. No Brasil, onde a riqueza privada também ultrapassa a casa dos trilhões de dólares, o mesmo movimento começa a ganhar força.
Contudo, a recente escalada das tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos trouxe uma camada inesperada de incerteza. Os Emirados, antes percebidos como espécie de “Suíça do Oriente Médio”, passaram a ser vistos com maior cautela.
Ainda que a narrativa oficial continue centrada em estabilidade e prosperidade, os efeitos indiretos já são perceptíveis: aumento do risco percebido, disrupção de rotas comerciais e reposicionamento de capital.
Mas se há algo que a geopolítica ensina é que a vulnerabilidade acelera a transformação. As prioridades do país na área filantrópica e sua intersecção com negócios seguem claras: inteligência artificial, transição energética, segurança alimentar, juventude e empregabilidade.
Nesse cenário, o capital filantrópico tenderá a operar cada vez mais como infraestrutura de desenvolvimento, assumindo riscos, testando soluções e financiando inovação.
O acesso a esse capital exigirá maior alinhamento estratégico, capacidade de articulação internacional e, sobretudo, entendimento profundo das prioridades da região. Ao mesmo tempo, o Brasil tem muito a oferecer: uma sociedade civil vibrante, experiência em inovação social e um campo filantrópico mais maduro.
O que hoje parece incerteza pode, na verdade, ser o início de uma fase mais estratégica, mais conectada e, potencialmente, mais transformadora. O Brasil tem potencial enorme para se tornar um parceiro relevante nesse novo cenário.
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