Heitor Gaudenci fez história na educação e na política – 28/05/2026 – Cotidiano

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Silenciou uma das vozes do Som da Roça, a afinada orquestra de violas de Vinhedo (SP). Calou uma fala potente contra as injustiças.

Quarto de seis filhos de uma família de fortes raízes católicas, Heitor Gaudenci Júnior seguia os caminhos do irmão Airton e estudava em um colégio agrícola, quando decidiu ser padre.

Entrou para um mosteiro. Nos seus anos ali, entretanto, teve desconfianças e concluiu que não seria a Igreja o instrumento que precisava para mudar o mundo.

Largou a batina antes mesmo de vesti-la. Passou no vestibular de filosofia e, na PUC-Campinas, conheceu o educador Paulo Freire. Acabou moldado por ele e por importantes teólogos, como Rubem Alves.

Se tornou presidente da UNE (União Nacional dos Estudante) durante o mestrado. Nascia ao mesmo tempo o líder político e o educador.

Heitor, ou Junião, como era chamado devido a seus cerca de 2 metros de altura, foi um carismático professor de filosofia. Inesquecíveis eram as aulas aos acordes de seu violão na Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), onde lecionou por 30 anos.

Ligado ao PT desde o início da quase cinquentenária história do Partido dos Trabalhadores, foi secretário de Cultura em gestão petista de Piracicaba.

“Quando nasci, meu pai já havia feito muita coisa na vida”, diz a filha mais velha, Anna Giulia Coppe Gaudenci, 27.

Era próximo das grandes lideranças do PT. Entre um comício e outro pelo interior, numa das campanhas de Lula, parou em Vinhedo com o candidato na casa do pai, Heitor como ele, para que o futuro presidente pudesse comer jabuticaba no pé.

Giullia lembra que a família foi a um evento pela reeleição de Dilma Rousseff. De longe, Lula reconheceu aquele grandalhão barbudo de chapéu. Passou pela multidão para abraçar o antigo companheiro e, de quebra, autografou o boné do Corinthians do filho João Pedro (hoje com 23 anos).

Heitor era um corintiano fanático, tanto que uma camisa do Timão foi levada ao seu velório.

Sempre avesso às diferenças, se recusou a retornar à universidade quando foi dispensado em um grande corte, porque a proposta não havia sido feita a outros professores.

De volta a Vinhedo, trabalhou como diretor de turismo e teve papel fundamental na criação do Circuito das Frutas, uma rota turística na região.

Leitor voraz desde os tempos de mosteiro, guardava na sala de casa mais de 1.500 livros, que serão doados à PUC de Campinas.

Nos últimos anos, se encontrou no Som da Roça. Era cantor, porta-voz e apaixonado pelo grupo caipira.

Num domingo, após uma apresentação dos violeiros, sentiu um mal-estar e foi levado ao hospital.

Morreu em 30 de março, aos 68 anos. Separado de Andréia de Cássia, deixou Anna Giulia e João Pedro.

O inseparável chapéu, os filhos encontraram na casa do pai com o broche de uma imagem de Nossa Senhora preso. “Teimoso é quem teima comigo”, costumava dizer o ateu que na juventude quase foi padre, sem nunca abandonar suas crenças.

coluna.obituario@grupofolha.com.br

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